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sábado, outubro 11, 2008

Devagar é Possível

Viver devagar é possível.

Viver em harmonia com o que nos rodeia, com a Natureza e com o nosso verdadeiro ritmo - não com aquele que se instala quando vivemos desligados e focados apenas nas exigências e tempos da "sociedade" -, é possível.

O Homem, quando vive desligado, tem frequentemente medo de parar. E por isso inventa mil e uma artimanhas para manter a sua mente ocupada quando, na verdade, o que o ajuda a amadurecer é parar o burburinho de fundo e permitir-se escutar, realmente, o que lhe pede a sua alma.

E a alma fala de forma diferente a cada indivíduo... Então como viver pautado pelas mesmas "exigências", como se todo o aglomerado populacional do mundo sentisse as coisas de forma padrozinada - ou melhor, não sentisse e reagisse como uma máquina?

Tentaram fazer-nos acreditar que os nossos sonhos não são exequíveis e que os objectivos de vida "têm" de ser os mesmos para todos os seres humanos - os mesmos empregos-tipo de sucesso, os mesmos ritmos para sair de casa e constituir família, os mesmos comportamentos aceites perante a sociedade.

Pois nós chegámos aqui, hoje, para dizer e mostrar como tudo isso não passa já de uma velha ilusão que, pouco a pouco, está a perder força. Novas formas de habitar a Terra e de conviver em grupo, viver relacionamentos, estão a nascer. Uma nova abertura e clareza de mente e de espírito assenta agora na estrutura que tem vindo a ser fundada ao longo das duas últimas décadas, principalmente.

Devagar é possível. Em paz é possível.

sexta-feira, outubro 10, 2008

Está nas Nossas Mãos Escolher o Céu

Ouvi uma amiga dizer: "Está nas nossas mãos escolher o céu!" e a mensagem atingiu-me de tal forma que me chegaram as lágrimas aos olhos...

Atravessamos um tempo de redefinição, em que depende apenas de nós perdoarmo-nos e curarmos o planeta. O caminho da iluminação passa por se viver o "material" - as relações, as situações diárias, a família, o emprego... - sem apego pelos resultados dessas experiências.

Recordo, por exemplo, os Egípcios e a sua profunda sabedoria e capacidade espiritual... mas recordo também, como se me estivesse gravado na alma, que existia ainda na altura um desenfreado apego à matéria. Nesta nova era, é-nos dada a oportunidade de atingir um novo patamar evolucional, mas depende de nós saber escolher - como diz a Elsa, "escolher o céu".

Acredito que a chave é a integridade - viver com verdade e em verdade, perante si e perante os outros. A verdade liberta. Quando se é verdadeiro para com a própria essência, todas as opções são tomadas conscientemente em nome de uma força, um propósito superior que nos une e anima.

Não será mais possível conviver com mentira e desonestidade. Tudo o que assentar nessa base, ruirá, cedo ou tarde. Só a verdade pode fundar os alicerces da nova estrutura do ser humano na Terra. Para mim, viver em verdade é "escolher o céu".

Ser Forte ou Fraco

Há momentos em que toda a estrutura parece ruir. Aquilo que se tem por certo ameaça ceder e a iminência de uma transformação profunda afirma-se certa, esta sim. É o sinal de que aquilo que há tanto se antevê (e mesmo se pede), se faz em breve.

O que fazer? Ser forte? Ser fraco? Ser, simplesmente. Aceitar a incapacidade de se controlar o comportamento alheio e agir de boa fé, pelo melhor (para si).

Por vezes, é preciso ser fraco perante o "destino". Reconhecer a própria fragilidade e impotência, perceber que nada se ganha com o alimentar de um ego que insiste em pregar partidas e realizar "histórias" que em nada têm a ver com a nossa realidade e missão aqui e agora.

Felizmente para nós, o próprio planeta se encontra a mudar e, com esta mudança de mentalidades e padrões energéticos, consciente ou inconscientemente, cada indivíduo se encontra neste momento em "processo"... processo de libertação, evolução, ascensão - chame-se o que se quiser. Realidade é que as velhas crenças e hábitos, mais do que provadas como sendo obsoletas para os tempos modernos, se encontram a decair. E que o digam as novas crianças que, em toda a sua coragem, pureza e inocência, desafiam os nossos mais intricados esquemas e enganos.

Por isto, ser fraco é o primeiro passo para se ser forte. É aceitar desconstruir-se de velhos tijolos e reconstruir-se novamente, desta feita de um material mais leve e confortável.

Atravessar o Véu

Atravessar o véu para o outro lado é dar um passo de cada vez, consciente de que se está a mudar o próprio mundo. É transformar um e outro, e ainda outro aspecto e ver uma nova realidade tomar forma.

É seguir a resposta do coração a todas as dúvidas e arriscar. Desapegar-se do que se ganha, desapegar-se do que se perde. Seguir despido - de expectativas, desejos, ilusões. Viver um dia de cada vez e respeitar o que se sente.

Atravessar... enfim.

É confiar, amar o processo, amar os guias, amar-se a si mesmo pela coragem de viver e crescer. É saber que se é capaz de correr mundos inteiros, animado pelo fulgor que nos aquece o peito e serve de motor a esta viagem.

Ritmo e Compromisso

Quando a vida parece correr desenfreada e há mil e um projectos para realizar, há alturas em que o universo pára o nosso corre-corre automatizado... Ou se pára a bem, por consciência, ou se pára à força. E mais vale parar a bem.

Um ritmo que abranda dá-nos a oportunidade de reorganizar alguma área da nossa vida. Há uma mudança a ser feita, ainda que seja uma mudança interna - a aceitação de algo.

Ainda assim, há que se manter os compromissos criados, na medida do que nos é possível, pois há situações que se curam quando "o que é suposto"... é feito. Que assim seja.

domingo, setembro 28, 2008

No Coração

Viver centrado no coração é um exercício que abre caminhos, resolve bloqueios e desenlaça um percurso à nossa frente que não precisa de ser controlado. É um percurso que se descobre a cada passo, tendo a confiança no peito de que se está no lugar certo, na hora certa.

É ter sonhos; sonhos que não são criados pela mente mas que existem já em algum recôndito do nosso coração. Como se a essência desses sonhos tivesse já nascido connosco. São os sonhos da concretização de quem somos. São os caminhos que, ao serem percorridos, fazem brotar uma luz que nos abre o peito e faz sorrir os lábios, os olhos, as mãos.

É uma arte que, como qualquer arte, faz olhar o mundo de uma determinada perspectiva. A perspectiva do coração é aquela que torna certo todo o acontecimento, torna compreensível e próxima toda a pessoa, torna bela e aprazível esta passagem.

A Vida É Uma Obra de Arte

Viver é construir uma Obra de Arte.

Ajuda ter sensibilidade, ser-se criativo, permitir-se mudar de rumo e de ideias ao longo do caminho, sempre no sentido de aperfeiçoar a obra.

Ajuda conhecer-se, saber-se quem se é, o que se quer, do que se gosta e necessita.

Ajuda entregar-se, sonhar, arriscar, largar... tornar-se a própria obra-prima personificada.

Criar uma obra de arte é algo momentâneo, que se alimenta das sensações e ideais de um momento. É algo que existe no Agora e que retrata a perfeita expressão de quem se é neste segundo. E por isto, as obras de arte nascem, crescem e aperfeiçoam-se, consoante as mudanças e os estados de espírito do criador.

Porque um Homem não é igual entre o hoje e o amanhã, também uma obra de arte só estará concluída... no final. Ninguém poderá adivinhar o resultado deste processo de criação, nem o próprio criador. É, contudo, algo que está nas suas mãos e que depende exclusivamente de si.

A flexibilidade é uma ferramenta que ajuda a esculpir esta obra com maior primor e encanto: aceitar-se a eterna mudança interna e externa e deixar-se embalar pelas ondas, qual barco em deleite no mar, numa tarde de sol.

Nascer Outra Vez

Existem tantos motivos e oportunidades para se tentar um renascimento.

Passados alguns dias sobre a comemoração de mais um aniversário, penso sobre os renascimentos que faço no dia-a-dia: o começar a manhã com uma determinada disposição, cumprir compromissos, surpreender-me e aprender algo de novo... Mesmo os dias mais dinâmicos adquirem uma certa rotina quando se desleixa o hábito de renascer vezes sem conta.

Renascer é preciso - para que a Vida não páre. Mudar, aprimorar-se, redefinir-se. Assumir que mudar pode ser divertido e que nascer novamente nas mais pequenas coisas pode ser um prazer. São os renascimentos que nos proporcionam as mais ricas experiências e que, com elas, nos tornamos seres cada vez mais maduros, completos, preenchidos.

E se, em cada dia, o meu objectivo for renascer? E se o meu mundo for pautado pelo prazer das novas experiências, da abertura para o inesperado, da alegria por viver cada novo momento?... Isso é... Liberdade. Libertar-se, ser livre, voar até onde os mais elevados sonhos se balançam.

quarta-feira, setembro 24, 2008

Homens Que Não São Ilhas

A Felicidade torna-se real quando é partilhada.

Um Homem sozinho no Mundo, poder-se-ia dizer Feliz? Até quando? Mesmo Feliz, cedo ou tarde iria sentir a necessidade do contacto, da comunicação.

Comunicar, partilhar - são aspectos da nossa essência, do mais profundo de quem somos. Nascemos para estar conectados e não para viver isolados. É uns com os outros que mais aprendemos e uns dos outros que precisamos.

Um Homem sozinho poderá atingir a sua meta... Mas o caminho será bem mais triste e tortuoso. Quando entenderão os Homens que não nasceram para serem ilhas e que, no ruído surdo do mundo moderno, comunicar não significa unicamente falar? Significa escutar, estar presente, dar de si algo em troca.

Ser Feliz ganha uma nova dimensão quando a partilha se torna uma consequência natural dessa Felicidade; quando permanecer Feliz parece só ser possível a partir do momento em que, mais do que querer guardar-se a Felicidade só para si, se opta por a transbordar e semear em cada canteiro do caminho.

Limites

Os limites sempre serviram, ao longo do tempo, para demarcar território; para mostrar até onde se pode ir; para afirmar, no fundo, quem se é.
Se, por vezes, possam ser entendidos como algo rude, sem eles deixaria de se preservar uma essência, uma vontade, uma individualidade. E o que é único, tornar-se-ia vulgar.

Defeito humano, talvez, este de tendencialmente desvalorizar o que se considera vulgarizado.

Acredito que quem sabe onde estão os seus limites, melhor saberá respeitar e entender os limites dos outros. É preciso saber do que se gosta e do que não se gosta. Essa ideia de "gostar de tudo" é, para mim, uma forma de evitar tomar uma posição acerca de algo. Há que se saber dizer perante o Mundo: "Eu sou assim!" e assumir os seus defeitos, virtudes e manias. Porque este é o primeiro passo para se saber e se aceitar quem se é. E só quando se atinge este ponto, se está então preparado para ir mais além.

É aqui que o verdadeiro trabalho começa. Se é verdade que somos únicos, é também verdade que todos somos feitos do mesmo, e esta partilha da matéria que nos compõe une-nos, faz de nós elementos da teia de um Todo.

Viver com plenitude passa, quanto a mim, por saber viver a Individualidade e o Todo; ambas as experiências se complementam. E são os limites bem definidos que melhor funcionam como ponto de partida para esta viagem de descoberta e recriação constante de quem se é, onde se está e para onde se vai.

O Sentido de Amar

Eu pergunto: Importa quem ou o que se Ama? Ou importará mais estar-se no processo de Amar?

Deixar-se envolver por aquela alegria de criança, inocente, que nada teme, de nada desconfia, que se entrega como se não existisse amanhã. Amar, sem controlo; deixar-se invadir o peito e brilhar o olhar, iluminar os sonhos, acender as esperanças, calar o burburinho do Mundo em volta e fazer soar a mais sublime das melodias.

Acredito que não existem desafios impossíveis quando se Ama de corpo e alma. Poucos e raros serão os casais que se encontram, adaptam e encaixam em perfeita paz e sintonia. Para a grande maioria, a vida a dois implica cedência, muita paciência e perdão, disponibilidade e por vezes (algum) sofrimento.

Mesmo estas relações cumprem um objectivo: o de retirar o Homem para fora do seu ovo, da sua casca e fazê-lo dar-se, crescer, expandir, descobrir dentro de si um universo imenso que se torna tanto mais rico quanto mais se partilha.

Quem isto percebe, sabe que o Amar tem tantos sentidos quantas as pessoas que experienciam o Amor. E ainda assim, para mim, o grande sentido de Amar é o de justificar o facto de se estar aqui, de se ter sido um dos "escolhidos" para esta experiência maravilhosa que é a Vida.

sábado, agosto 23, 2008

A Dois

Há olhares, palavras, gestos, toques que me fazem recordar um passado não muito distante e que trazem à lembrança emoções, sensações, histórias encantadas.

Há pessoas que, sem olhar ao tempo decorrido no calendário, continuam a brilhar de uma forma especial, como se permanecessem intocáveis aos dias, meses e anos que entretanto se estabeleceram.

Há sentidos que a mente desconhece e o coração reconhece. Há ligações que adquirem novos significados e se enriquecem a cada interacção.

Há sonhos que ficaram por contar, aprofundar, partilhar. Há surpresas que surgem quando, sem expectativas, me limito a existir neste tempo e espaço, com a maior genuinidade que me é possível. Há um sorriso e um calor no peito que transborda e me diz, quando estamos juntos: "Cheguei a casa."

Existes tu, especial e inconfundível, no teu brilho peculiar, e que, de novo à minha frente, me fazes perceber o quanto determinadas pessoas se devem guardar como a um tesouro, por serem demasiado valiosas e raras para alguém se dar ao luxo de as perder ou delas abdicar.

Família

Família... O seio onde tudo começa e onde as maiores aprendizagens tomam lugar.
Há desafios que são nucleares ao processo de se crescer. A Família é o habitat onde se encontram disponíveis os maiores ensinamentos. É nela que se exercitam as competências que depois serão transpostas para os restantes núcleos e sistemas.

A Família é uma pequena esfera onde determinados temas que necessitamos de trabalhar se encontram em destaque. Com maior ou menor facilidade, há que se abraçar e entender a família como uma dádiva, uma oportunidade de treinar e melhorar aquilo em que ainda não se é "excelente".

Mesmo quando, aparentemente, o indivíduo se afasta das suas "aprendizagens familiares", outras personagens se tornam disponíveis para lhe proporcionar essa vivência. Isto porque não se foge de um contrato. Cedo ou tarde, é-se chamado à responsabilidade de cumprir o compromisso de crescer em determinados aspectos.

Então, porque não começar por quem nos possibilitou ganhar forma neste mundo?

Uma Nova Etapa

Quando uma porta se fecha, outra se abre. Sigo com a convicção de que novos caminhos se abrirão, novas aprendizagens, novas conquistas.

Há momentos em que é preciso despertar e recordar o compromisso que se tem consigo mesmo de se ser feliz, de se ser "egoísta" no sentido em que quando se está no seu caminho, quando se vive a própria verdade, quando se respeita a primeira pessoa que precisa de ser respeitada - o próprio, com os seus sonhos, as suas crenças, a sua essência -, já se fez mais de metade do trabalho para que a sua passagem por este planeta seja positiva.

Tudo passa, tudo se transforma. Nada é eterno, nem a alegria, nem a dor. É por isto que acredito que a paz de espírito é um bem que não se paga, não se empresta, não se possui de forma ilícita. É uma benção que inunda a alma quando corpo, mente, emoções e espírito estão alinhados e reagem a um só chamamento - o da verdade interior.

Cada dia serve como ponto de reavaliação do caminho pelo qual se optou. Acredito que o melhor guia na decisão pelas novas etapas é a paz de espírito. Há decisões mais fáceis do que outras, mas mesmo quando se escolhe um desafio que à partida parece ser "exigente", se no interior existir paz, então há para mim a confiança de que se terá optado pelo melhor.

E as opções não estarão certas ou erradas; serão apenas aprendizagens.

quinta-feira, agosto 14, 2008

Fidelidade, Excelência, Integridade

Sou Fiel a mim mesma. Digo o que sinto e penso, ainda que isso nem sempre seja o "convencional". Vivo aquilo em que acredito. Só assim merece a pena. Comunico guiada pela vontade de ser excelente comigo e com os outros. A verdade liberta.

Ser Excelente é ter como guia a perfeição divina, aceitando a própria "limitação" humana. É ser-se flexível e escolher ver o melhor em cada um. É viver de acordo com os próprios ideais, ainda que em redor de si muitos não os partilhem. É saber que se tem direito a uma existência pacífica. É proporcionar essa existência aos outros, a partir dos pequenos gestos.

É aceitar que outros tenham verdades diferentes da sua. Compreender que cada um tem o seu palco onde se desenrola a sua própria peça, e que todos somos personagens síncronos nas peças de cada um.

Viver com Integridade é viver a peça, com a consciência de que existe algo muito mais vasto para além dela. É aceitar participar, sabendo que se ela está a decorrer, é porque a história ainda não chegou ao fim. É deixar-se guiar neste enredo pelos valores universais que nos unem, sustêm e "salvam"...

Aprender

Aprender uma coisa de cada vez é mais fácil do que aprender duas em simultâneo. Às vezes parece que não há escolha possível, mas ela existe sempre.

Surge a primeira aprendizagem. Se escolhemos integrá-la, ela não necessita de regressar e prosseguiremos o caminho sem "peso extra na mochila". Quando não a integramos, ela regressa cada vez com mais força, até se fazer ouvir. A situação é que, ao regressar, esta mensagem vai operar em simultâneo com outras que já estão no seu tempo de serem transmitidas. É neste momento que o silêncio se torna um poderoso aliado, para que a tomada de decisão seja pouco ou nada afectada pelo ruído.

Cada mensagem traz em si a responsabilidade do resgate de um compromisso. É importante deixar de se viver pelo impulso, sem medir consequências. E, ainda assim, na inocência da criança interior de cada um, Aprender com a sagacidade de quem tem todo um mundo pela frente para descobrir.

Enlaçar Mundos

Há mundos que podem ser enlaçados, mas não confundidos ou comparados na sua essência.

Existem parcerias, acordos, processos em conjunto, que trazem resultados para ambos os mundos. Há um enlaçamento que aproxima, que possibilita reconhecer que, na outra bolha, vibra um reino alternativo, rico em detalhes e cores.

A essência é um mundo por si só, que não precisa de complementos, mas que se enriquece quando se permite interagir, aprender e crescer com outras essências alternativas a si.

Do enlaçamento dos diferentes mundos resulta uma teia, uma rede que suporta outras esferas e dimensões, para a maioria de nós ainda desconhecidas.

Entender esta realidade é espreitar por debaixo do véu que cobre a matriz original; é dizer baixinho "Eu quero saber mais", enquanto se antevê com suspense o desenlace de um segredo oculto ao longo de milénios.

quarta-feira, agosto 13, 2008

Manifestar

É quando se entregam as coisas que antes se amavam e se desejavam que elas, então, se direccionam para si. A forma é a cristalização do que existe no alto, e lá em cima tudo é livre...

Para manifestar, há que se desejar com pureza de sentimento, entregar-se o resultado e fazer-se silêncio sobre o processo, quando a única conversa sobre o tema que realmente interessa se faz entre si próprio e o Divino.

É saber ouvir as mensagens e confirmar no interior o que já se conhecia. É confiar no processo e deixar de parte a dispersão intelectual com os seus "ses" e "quandos".

É permitir-se experienciar a beleza de cada momento e a dádiva de cada sopro.

É Tempo

É Tempo...

É Tempo de Semear. Semear valores, semear ideais, semear sonhos.
É Tempo de Reafirmar o caminho, de olhar para trás e reconhecer o passo que se avançou, de dizer "Eu Sou Capaz", "Tudo Muda", "A Vontade Surte Efeito".

É Tempo de Continuar caminhando, humildemente, alegremente, pacificamente.
É Tempo de Pedir reforço de energia para prosseguir com coragem, confiança, firmeza.
É Tempo de dizer Obrigado.

É Tempo de chorar de Alegria.
É Tempo de Acreditar.
É Tempo de Construir, passo a passo, os alicerces de uma vivência brilhante.

Pausa

Aceito a pausa.

Reorganizo ideias, relaxo, aproveito o tempo de criar e de sentir. É altura de retemperar energias para uma nova etapa.

A pausa é apenas aparente. Subtilmente, o processo continua em movimento. Os mecanismos activados não tardarão a dar os seus frutos.

É preciso saber seguir a par com o ritmo natural da mudança. Este é o processo da Vida, em que tudo muda, mesmo quando aparentemente nada de novo acontece. Reconhecendo os artifícios e distracções, esta é uma caminhada que se faz cada vez mais pelo interior.

Ao controle das condições externas, dá-se o nome de "ilusão". À transmutação das condições internas, dá-se o nome de "crescimento". Aos abrandamentos no processo, dá-se o nome de "oportunidades de reavaliação".

E afinal, o que conta é a viagem.

Acreditar no Sonho

Acreditar no Sonho é...

Idealizar, sentir, construir no imaginário os pormenores da felicidade... e vê-la tomar forma passo a passo. É ter a coragem de sonhar e afirmar para si mesmo que o que tanto se deseja é possível. Quando a mente e o coração estão limpos.

É focar o objectivo, alimentá-lo com amor, enquanto em simultâneo se entrega o resultado a algo superior a si próprio.

É abdicar de controlar ou tentar influenciar o processo e confiar que se este sonho é realmente o melhor para si, ele vir-se-á a desenrolar frente aos próprios olhos.

É reconhecer as oportunidades e portas que se abrem, e entrar por elas... em paz.
É ser-se activo, estando-se atento ao feedback que se recebe.
É amar o próprio sonho, com desapego pelo resultado.
É pedir e agradecer.

Sonhar é viver a construção dos próprios castelos, sabendo que eles são seus por direito, a partir do momento em que se existe.

Quando Um Teste Se Repete

Quando um teste se repete, é sinal de que a resposta que eu dei no passado não foi a mais adequada. Desta vez, posso fazer diferente.

É a oportunidade de "responder bem", ainda que não existam respostas certas ou erradas. É a possibilidade de reencontrar o equilíbrio.

Por vezes, os testes despoletam emoções e sentimentos que necessitam de libertação. E mais ainda, de transmutação. É dar-se a oportunidade de sentir e, uma vez cá fora, transformar essas emoções, compreendendo, aceitando, perdoando e libertando.

Compreender... o que tenho a aprender aqui.
Aceitar... que estou a fazer o meu processo.
Perdoar... a mim mesma por ainda cair na "armadilha".
Libertar... o passado e o futuro. Estar aqui e agora.

É florescer na aprendizagem de quem se é.

O Amor Não Olha à Forma

O Amor não olha à forma. Ama. Ama o evoluído, ama o que está em evolução. Acredita que tudo é perfeito, e ama, simplesmente.

Sabe dizer sim e dizer não. Não importa o que diz. Importa a pura intenção com que o faz. Importa perceber que, na Luz e no Amor, todo o ser encontra um espelho, onde se pode ver reflectido e se reconhecer. Onde pode recordar a essência que existe em si, chorar de aceitação, de libertação. Entregar-se ao poder transformador desse reconhecimento.

O Amor transforma. Derrete barreiras e amarras. O Amor liberta, na consciência de que nada lhe pertence: o relacionamento não lhe pertence, o emprego não lhe pertence, a família não lhe pertence, a casa, o carro, todos os bens não lhe pertencem. São desígnios criados para o próprio bem, usufruto e crescimento. Nada é seu e, ao mesmo tempo, tudo existe para si.

O Amor é... a essência, a meta, o meio.

sábado, março 24, 2007

Obrigado

Há momentos em que só apetece dizer OBRIGADO, alto e em bom som. Às vezes não se sabe bem a quem ou a quê se agradece, mas é transbordante a gratidão que inunda o peito, e pronto, lá se agradece na esperança de que o responsável por uma dada benesse escute o agradecimento e fique comovido.
Ou pelo menos, que reconheça como ficámos nós comovidos com a oferta inesperada de algo que vem como que uma lufada de ar fresco.

Do que tenho aprendido com os outros e com a minha própria experiência, compreendo que quanto mais se agradece, mais se quer continuar a agradecer. E mais razões se encontram para se agradecer! Porque a gratidão deixa o peito cheio e só abre espaço para coisas boas.

Cada vez mais tenho a certeza de que o agradecimento anda de mãos dadas com a prosperidade. Quanto maior é o entusiasmo genuíno com que agradecemos o que nos foi dado, maior é o bem-estar que se instala nas diversas áreas da nossa vida - amor, família, trabalho... Pode-se dizer que o "obrigado" é como que uma constipação boa. Assim que se instala numa dada área, contagia as restantes.

Eu chamo-lhe uma das Ferramentas Básicas do Sucesso! As pessoas de sucesso que conheço cultivam uma atitude genuína de agradecimento, seja inclusive ao porteiro do prédio. E se isso é essencial para fazer delas pessoas felizes e bem-sucedidas (eu acredito que sim), então escolho aprender com quem sabe...

Parece tão simples, não é? E é!

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

A Vaca e o Pássaro

Skip era uma vaca-maravilha que voava pelos céus com a sua capa cor-de-rosa.

Gostava muito de voar, viajar, conhecer outros animais e lugares, maravilhar-se com as pequenas coisas da Vida, como o aroma perfumado das rosas e a frescura do orvalho matinal.

Nas suas longas viagens, conhecera já muitos pastos verdejantes e saborosos, dormira sob a sombra de árvores majestosas, correra desvairada por planaltos sem fim.

Enquanto estava em movimento, a Vida era uma euforia, uma louca volta na montanha-russa. E depois de cada alucinante vôo, de língua de fora e a recuperar energia, a vaca perguntava: "O que vem a seguir?".

Até que um dia encontrou um ovo. Olhou-o, lambeu-o, empurrou-o com o nariz. E do interior ouviu um espicaçar. Esperou uns minutos. De novo, um espicaçar.

Os minutos tornaram-se horas, as horas tornaram-se dias e noites, até que a casca começou a estalar. E a partir da casca dura nasceu um pássaro ternurento.

Passaram-se semanas e meses, o pássaro cresceu e tornou-se a companhia perfeita para as suas aventuras. Skip quis ensiná-lo a voar e a perder o medo de não ter as patas assentes na terra. Pipo gostava de lhe mostrar como a água bebida em pequenos goles se tornava ainda mais saborosa. Que parceria invulgar...

Um dia, Skip deu por si a pensar em como a sua Vida se havia transformado por ter decidido parar e esperar aquelas semanas e meses.

E voltando-se para Pipo, só lhe ocorreu dizer: "Obrigado."

Amor é...

... uma luz que não deixa escurecer a Vida - Camilo Castelo Branco

... o querer estar perto, se longe, e mais perto, se perto - Vinicius de Moraes

... um pouco de loucura e muita curiosidade - George Bernard Shaw

... a verdadeira vida do Espírito - Voltaire

... chamar o outro para fora da sua solidão - André Ligneu

... algo que nunca se desgasta e que quanto mais se dá, mais se tem - Exupèry

... admirar com o coração - Theopile Gautier

... a origem, a causa e o fim de tudo quanto existe de grande, belo e nobre - Alphonse Karr

... a asa veloz que Deus deu à Alma para que ela voe até ao Céu - Michelangelo

Muda em Ti (o que gostarias de Mudar nos Outros)

Percebo que as pequenas (in)significâncias dos outros que me incomodam são o reflexo de aspectos meus que tenho a modificar.

Uma pessoa que se veja como inconstante, sentir-se-á irritada com o facto de os outros o serem consigo.

Alguém que critique com frequência, estará também mais sensível à crítica dos outros.

Por isso eu concluo que se há algo de que não gostamos em determinada pessoa, o melhor a fazer é um exercício de auto-análise para compreender em que medida nos tornámos naquilo que mais rejeitamos.

"Tudo aquilo a que resistes, persiste." - Carl Jung (1875-1961)

Então resistir torna-se a forma mais fácil de perpetuar uma situação. A rocha que resiste às ondas do mar é desgastada pela sua força repetitiva. À primeira vista, parecerá que a rocha é mais forte, sólida. Mas a força dos elementos a que ela resiste aceleram o seu processo de erosão, até nada mais restar.

Agora vejo que a resistência é como que um processo de erosão do próprio espírito.
Resistir a uma situação que se afigura incontornável, resistir a uma pessoa que se revela incapaz de ouvir verdadeiramente o que temos a dizer, é investir forças num processo sem qualquer retorno positivo (para nós).

A ideia da revolta e de se estar contra algo só é vista como opção por quem ainda não entende que a guerra não é a melhor forma de instituir a paz ou a justiça. E é nas "pequenas guerras" do dia-a-dia que nos é permitido optar por uma via diferente.

Acredito que só uma sociedade esclarecida compreende que a paz se cultiva nas pequenas interacções quotidianas. Acredito que há cada vez mais de nós a entender este conceito, cada vez mais indivíduos que cultivam o respeito como a via para a paz.

"E quando nos faltam ao respeito?", pode haver quem pergunte. Cada qual é capaz de encontrar a sua forma de dizer não, estabelecer limites e, ainda assim, abster-se de entrar em esquemas nefastos.

Para trilhar pela Vida de uma forma suave, posso reconhecer e modificar em mim as atitudes e comportamentos que desaprovo nos outros. Em algum nível do meu ser elas existem. E quando a vontade de estar bem comigo própria e com a Vida é maior do que o próprio orgulho, os "milagres" acontecem.

É então que...

... reconheço nos outros o que há de melhor neles
... atraio pessoas diferentes, que reflectem o meu modo de Viver

É por isto que todo o "trabalho interior" vale a pena.

"Tu crias o teu próprio Universo à medida que caminhas." - Winston Churchill (1874-1965)

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Melodias

A música é uma das formas de expressão mais fantásticas de que alguém um dia teve idéia...

Imagine-se um dia "normal". Um dia em que tudo correu "bem", em que se fez o que se auto-propôs. Um dia, só por si, satisfatório.

Ou mais do que isso, se se tratar de um dia em que se conseguiu tocar uma outra pessoa, dizer-lhe algo do coração.

Um dia em que se conseguiu brilhar, em que se viu a outra pessoa brilhar por lhe termos dito duas ou três palavras que, por pequeninas que pareçam, fizeram a diferença. Este é um dia validado, a meu ver. Um dia em que se pensa: "Uau, valeu a pena ter arriscado parecer um idiota ao dizer qualquer coisa que a maioria das pessoas classificaria como sem sentido, mas que esta pessoa em particular compreendeu e reflectiu como verdadeira".

As palavras possuem um poder fantástico. O poder de deslumbrar, o poder de tocar onde nem os olhos conseguem ver, o poder de ferir... e ainda o poder de validar o que de melhor há em nós e nos outros, o que de melhor há no que temos, o que de melhor há no que sonhamos. Bastam uma ou duas, e todo um dia pode adquirir um colorido inesquecível, como que uma memória fotográfica de um sentimento, de um único momento em que nos sentimos simplesmente FELIZES.

Então agora... imagine-se este dia, já marcado na memória por esta troca de palavras, de ideias, de sentimentos. Este dia que já se tornou "especial".

Adicionemos-lhe uma "banda sonora". Uma música, perfeita e única que, por acaso (para quem neles acredita) tocava na rádio naquele momento, ou no nosso leitor de CDs/mp3. Uma música que alguém nos enviou pela internet, pelo MSN, por uma qualquer via de comunicação online e em tempo real. Esta música particular que surge como que uma surpresa e que vem trazer algo de novo ao nosso dia. Esta melodia que nunca ouvimos e que, neste preciso momento, nos arrepia a pele e enche o peito e faz sentir VIVOS.

O momento ganha outra dimensão. De repente, os sentimentos e emoções fundem-se, envolvem o corpo, os olhos. Há um silêncio deslumbrado na forma com que observamos todo o instantâneo. As pessoas ganham outra cor. É como se se tornassem mais frágeis, humanas.

Como se tudo no universo quisesse dizer: "É perfeito este momento."

domingo, setembro 17, 2006

Desapego

Estive cá a pensar com os meus botões e concluí que um dos maiores desafios da Vida é o Desapego. Quando me disseram que tínhamos de ser todos amiguinhos uns dos outros, tratá-los como gostamos de ser tratados e estar lá para eles quando precisam, esqueceram-se de incluir na lista de requisitos para viver em interdependência a nota "única e exclusivamente com desinteresse".

Suspeito que a nota vinha em rodapé, Times New Roman, tamanho 2, ao estilo de uma boa cláusula de contrato que é suposto ninguém ler.

Esta questão do desinteresse e da interacção com os outros é, no mínimo e para não dizer outra coisa, tramada. Todas as relações consistem numa troca. Seja material ou emocional, existe um motivo pelo qual aceitamos manter uma ligação e cultivá-la. Pode ser o nosso patrão, que nos paga o ordenado no final do mês; um amigo, com quem nos divertimos e partilhamos confidências; ou mesmo um companheiro com quem não somos felizes, mas permanecemos pela segurança de ter alguém.

Alguém mais precipitado pode ser induzido em erro ao pensar que desinteresse significa não valorizar a outra pessoa. Certamente que o empregador responsável pelo nosso contrato tem sentido de humor britânico e nos quis pôr a pensar antes de compreender realmente onde está a piada da coisa.

O que ele poderia ter logo esclarecido é que viver com desinteresse e desapego nada tem a ver com perder a alegria de estar vivo e da ligação às pessoas, mas sim com viver essas ligações sem expectativas e amarras, aceitando que algumas pessoas partam e que outras entrem no nosso corredor, para nos acompanhar por alguns (ou talvez muitos) kms.

Eu vejo isto como um labirinto gigantesco por onde se passeiam inúmeros caminhantes, alguns percorrendo os mesmos corredores até ao momento em que decidem virar noutra direcção. A realidade é que todos caminhamos para o centro e, cedo ou tarde, nos reencontramos lá.

E quem diz que é fácil ver quem gostamos seguir numa direcção diferente da nossa? Tornamo-nos apegados ao outro e até acreditamos que a vida perde a sua tonalidade vibrante se essa pessoa partir.

Citando o nosso amigo John Edward, "há que validar as pessoas enquanto elas estão presentes na nossa vida". Ninguém sabe onde e com quem vai estar amanhã. Vale a pena parar e olhar para quem nos acompanha neste momento. E rir, viver, partilhar. O amanhã nunca chega e o ontem já lá vai.

quinta-feira, setembro 14, 2006

Pedaços de Nós (E dos Outros)

O ser humano é o enigma mais incrível...

Onde termina o Eu e começam os Outros?

Apresento-me com o meu nome, idade e o que faço e estes são os primeiros índices que me validam como distinta dos demais.

Mas quando se fala de individualidade e da sua origem, é curioso reparar em como o que somos hoje se traduz num conjunto de pedaços integrados do que fomos colhendo dos outros, ao longo do percurso. Expressões, crenças, posturas...

Desde o nascimento que aprendemos a interagir com o mundo e a inserirmo-nos nele, imitando. O processo torna-se de tal ordem automático que por vezes não é fácil perceber porque reagimos sempre da mesma forma em determinada situação ou porque nos tornamos cada vez mais parecidos com as pessoas com quem convivemos.

Identificamos nos outros qualidades que julgamos não possuir ou que ainda não recordámos que existem dentro de nós, e isso torna-os alvos de desejo e contemplação. Mas o processo funciona para o bem e para o mal, e os padrões negativos também são replicados.

Então, como dizer o que é nosso e o que é dos outros?
Acredito que nascemos com traços inatos e que a personalidade se molda em torno deles, consoante o que experienciamos.

E se existem tantos pormenores nossos que derivam do contacto com os outros, merece a pena reflectir sobre o tipo de outros que escolhemos para integrar o nosso círculo. "Separar o trigo do joio" não implica necessariamente discriminar e excluir, mas antes escolher conscientemente que tipo de pessoa se quer ser, em que sentido se escolhe evoluir.

Somos como que uma mescla de tecidos mais ou menos bonitos, melhor ou pior cozidos uns aos outros. Os pedaços de nós, que são também pedaços dos outros, distinguem-nos e unem-nos. Quase se poderia dizer, ao andar na rua: "Olha, ali vai a minha orelha" ou "Toma lá o teu sapato fedorento, já não me serve."

quarta-feira, setembro 13, 2006

Perdoar

Hoje pediram-me para perdoar alguém.
Foi fácil encontrar vários alguéns para perdoar.

Ao caminhar pela Vida, encontramos por vezes quem caminhe ao nosso lado, atrás, à frente ou até em sentido contrário.

E como somos tantos a percorrer o mesmo caminho, é fácil esbarrar em alguém sem querer (ou por querer). Consoante a pressa e atenção, a alguns pedimos desculpa, outros nem reparámos que se magoaram e com outros ainda temos o desplante de aproveitar para descarregar a frustação e o cansaço da nossa própria viagem.

Para mim, quando duas pessoas se esbarram, ambas são responsáveis pelo "acidente". Vinham distraídas, a olhar para o seu próprio umbigo ou para o ar e eis que há um encontro imediato de testas que as obriga a parar e prestar atenção. Há choques que resultam em autênticos galos que cantam anos a fio aos nossos ouvidos. E o mais chato é que a melodia é sempre a mesma (ainda não houve quem ensinasse galos a se actualizarem, fazendo downloads grátis de mp3 da internet).

Ora eu descobri que a melhor forma de calar um galo é trocá-lo por outro animal mais pacífico e melodioso. Comigo funciona bem o gato. Ronrona e faz miaus de ternura mesmo antes de se vir enroscar nas pernas e pedir brincadeira. Ok, consigo viver com isso. Mas com um galo estridente a acordar-me às 4h da madrugada... esqueçam!
De modo que, confrontada com a problemática do embate, solucionei o caso iniciando uma criação massiça de gatos felpudos e mimosos, altamente especializados em derreter o mais frio dos corações com os seus olhos grandes e brilhantes.

Assim, tudo fica mais fácil. Imediatamente a seguir ao sinistro, coloco a bola de pêlo com uma fita cor-de-rosinha enrolada no pescoço aos pés do tipo que me olha desconfiado. Assobio e conto os segundos até que, uma vez mais, o pêlo macio revela a sua mestria e docemente embebe o confrontador em ternura. Há uns mais fáceis de embeber do que outros. Mas o que importa é que a minha parte da embebedura fica feita; resta ao tipo aceitar a oferta.

Perdoar é cortar as amarras que nos encalham no passado, qual Titanic encalhado em pleno Oceano Atlântico numa noite gélida de Inverno. Mais vale largar o navio de uma vez antes que ele vá ao fundo.

terça-feira, setembro 12, 2006

O Mistério das Coisas

Paz...

Como uma mão que limpa com suavidade a testa de todos os pensamentos difusos.

No silêncio que se instala, não há mais o que querer, temer ou esperar.
Como que apenas existisse este momento único e tudo perfeitamente repousasse no local que ocupa. Sem mistério.

Aqui mesmo, sentada neste pedaço de areia frente ao mar, observo o fluxo e refluxo de cores e relevos que mais parecem o tema de um quadro a óleo, pintado em momento de êxtase divino, e que insisto em saborear com deliciosa preguiça.

Enquanto se despede o sol do meu rosto, continua o mundo em reboliço surdo e aparente desconhecimento desta paz que me transborda do peito.
E eu pergunto para onde correm tantos pés ansiosos. Onde julgam eles encontrar um local mais perfeito para se estar do que este mesmo?

E nesta entrega ao doce embalo da Vida, expande-se-me no peito a profunda gratidão pelo sentir sublime de cada momento.


"O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol,
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais do que pensamentos."


Alberto Caeiro - O Guardador de Rebanhos

segunda-feira, setembro 11, 2006

Sabedoria de Formiga

Quem disse que as formigas não são sábias?

Se olharmos bem de perto, existe uma panóplia de semelhanças entre a formiga e o ser humano.

Tal como nós, constituem formas avançadas de sociedade, curiosamente denominadas Eusocialidades. Poder-se-ia brincar e chamar-lhes as Sociedades do Eu, mas desengane-se quem ousar tomar a formiga por egocêntrica.

Resistindo desde há 100 milhões de anos a toda a sorte de provas, as formigas são o verdadeiro exemplo de que interdependência é sinónimo de força e longevidade. Desde a simples obreira, à defensora e culminando com a rainha-mãe, todas são importantes e contribuem para o equilíbrio e sobrevivência do formigueiro. É um pequeno universo, para o qual se pode olhar como se supõe que o Criador olhe para nós: com curiosidade e um pequeno "Ah!" de admiração.

No mundo da formiga, ser independente é tão arriscado quanto ser dependente. A formiga independente que procura comida sozinha, está sujeita a perder-se do trilho. A formiga dependente, que se limita a seguir o rasto das suas companheiras, nunca sabe ao certo para onde se dirige. Qualquer um dos extremos se assemelha a uma corda que a formiga atravessa em frágil equilíbrio.

E por vezes é fácil caminhar por limbos sem se ter a noção. Mas a vida encarrega-se de dar as suas bofetadas para que a formiga levante as antenas. E é preciso humildade de formiga para saber reconhecer na bofetada uma lição.

Por vezes, sinto-me como uma formiga no início de um caminho que parece interminável face ao tamanho dos meus passos. Um passito aqui, outro acolá, vou avançando. Quando olho para trás, parece que caminhei uma imensidão. Mas ao olhar em frente, baixo subtilmente as antenas para que o ego não as levante tanto que acabe por bater numa árvore.

A bagagem que trago é leve. Ouvi dizer que um pouco de atenção, tolerância, perdão e humildade seriam suficientes para chegar ao outro lado. Mas parece-me que coloquei de menos e de vez em quando preciso de parar para reabastecer...

domingo, setembro 10, 2006

Mudar

Há alturas na vida em que algo se torna insuficiente.

O que anteriormente encaixava na perfeição no puzzle, transforma-se numa peça orfã e de contornos desgastados, sem local aparente de encaixe.

O que fazer com esta peça solta? Reutilizar, reciclar? Embora ecologicamente correcto, ainda não houve quem se aventurasse a inventar um reciclador de sentimentos, e aí é que a coisa se complica.

Fosse assim tão simples e teríamos tirinhas de sentimentos saídas directamente do ReciclEMO, um ultra-moderno reciclador emocional com autonomia avançada, pronto a detectar qualquer emoção desajustada e a, mais rápido do que um Speedy Gonzalez, desfazê-la em pedaços. Com este fantástico dispositivo implantado no centro do peito, a paz de espírito seria uma constante.

O Criador do Homem, na altura de atirar com a criatura cá para baixo, deve ter pensado: "Paz de espírito assim, de mão beijada? Que piada é que isso tem? Vou antes colocar aqui dois botões, o Medo e o Amor, e deixá-lo chafurdar nas emoções. Ihih!"

Mas como era Sábado, ele até estava animado e a criatura veio com um extra: vontade de Mudar. O único senão é que este extra, sendo mais rudimentar do que o ReciclEMO, necessita de duas peças essenciais para colocar a engrenagem em funcionamento, Coragem e Fé.

É preciso Coragem para ir mais além e transformar o que já não funciona.
É preciso Fé para acreditar que tudo pode ser mais simples e recompensador.

É preciso, acima de tudo, Amor-próprio para querer unicamente ser Feliz, muito Feliz!

segunda-feira, setembro 04, 2006

A Arte do Toque

Recentemente, encontrei um amigo daqueles que são como que almas gémeas, nos quais nos revemos e espelhamos como em água cristalina.

Espelha-se entre nós o flagrante prazer de tocar. Automática e quase instantaneamente, trocamos afectos, carícias e toques subtis na interacção com aqueles com quem afinizamos. Alguns sorriem, outros retribuem, outros encolhem-se e há ainda quem diga claramente NÃO.

O toque permite reconhecer a existência do outro, alimentar a ligação. Uma mão que se passeia vagarosamente por entre uns cabelos descontraídos comunica doçura, suavidade, desejo, aconchego ou simplesmente brinca. Muitas vezes, as próprias palavras se limitam a calar perante o prazer sagrado do toque. Porque há coisas que só sentidas.

Tocar é, para mim, um reviver de tradições ancestrais. É primitivo, puro, verdade. O toque não mente. Para saber se alguém te ama, toca-lhe. Seja amor, medo, indiferença ou até repulsa, a reacção é autêntica. Vem das entranhas.

É uma dádiva e um pedido. Inunda o peito com um formigueiro apaziguador que sobe até aos lábios e se transforma em sorriso.

É arte...

segunda-feira, agosto 07, 2006

Amar é Derrubar Muralhas

Há uns dias atrás fizeram-me uma proposta...

A proposta em si de assustador nada tinha. Bem pelo contrário, era apetecível como um bolo de chocolate, daqueles com cobertura dupla ainda a escorrer pelos rebordos.

O requisito para comer uma fatia de 10.000 calorias capaz de proporcionar um orgasmo tântrico (3 horas, diz o Zé Pedro?) era subir uma muralha que mais parecia a da China.

Ora eu como sou esperta, cá do meu banquinho, bem longe e com uns binóculos pus-me a apreciar a coisa. Bem ao estilo do controlador precavido analisei os kms até à muralha, altura, textura da construção, influência da temperatura e inclinação do eixo terrestre na minha escalada. Se era para fazer, era para fazer à séria...

Olhando uma última vez para me certificar de que a muralha ainda estava no sítio, vi a Carla no topo aos pulos e esbracejante, como se o Mundo estivesse a terminar e só faltasse eu para me deliciar com a bela da fatia. Com tanto sinal de fumo e antes que me responsabilizassem pelo aumento do efeito de estufa, fiz-me à estrada: "Minha amiga, vais escalar aquela muralha nem que esfoles os joelhos, cotovelos e todas as extremidades imagináveis."

E ou eu sou muito cegueta, ou o medo funciona como lupa com poder de ampliação 10.000 x. Quando cheguei, pronta para a saga da escalada, tive de me rir perante a cerca de jardim com 50 cms de altura, derrubável com um espirro.

Do outro lado, a comitiva de recepção estava já em processo avançado de festejo, talvez um pouco alcoolizados e sem algumas roupas, com um post-it estampado em cada testa: "LOUCO? Sim, mas FELIZ!"

E o bolo? Consta que alguém fugiu com a última fatia e raptou o cozinheiro. Amar é derrubar muralhas... ou talvez cercas de jardim.

domingo, agosto 06, 2006

Dizer Sim

Há quem diga que a espiritualidade é dizer sim a tudo. Eu concordo com esse alguém que o diz.

O verdadeiro Amor passa pela aceitação incondicional de si próprio e dos outros...

Aceitar que cada qual é perfeito à sua maneira, que cada um tem o seu próprio ritmo de aprendizagem e capacidade de escolha é reconhecer que isso é verdade para mim também.
Dizer que os outros são impuros pelas escolhas que tomam, por essas escolhas serem diferentes daquelas que para mim são as mais adequadas, é negar a perfeição divina que existe em cada um.

Porque o que eu vejo nos outros é o reflexo daquilo que reconheço que existe ou já existiu em mim, o verdadeiro Amor passa por aceitar que ninguém "tem de ser" perfeito, mas que pode escolher sê-lo quando o desejar.

O que faço aos outros é um reflexo do que faço a mim própria. Aceitar que todos têm a possibilidade de criar nas suas vidas as experiências que os conduzem às aprendizagens de que necessitam é aceitar que também eu tenho esse direito. Que posso "tropeçar" e levantar de novo, aprendendo.

Para mim, Amor é sinónimo de Liberdade e Respeito, é reconhecer que ninguém é igual a ninguém e que, ainda assim, todos somos feitos do mesmo. No final, a escolha é de cada um e ninguém é superior por estar um passo à frente. A criança da 1ª classe não é menos do que a da 4ª. No seu próprio tempo, ela há-de lá chegar.

E tudo bem... O Universo é perfeito.

sábado, agosto 05, 2006

Parábola da Lâmpada

Eu cá suspeito de que quem teve a ideia de formar o Clube da Crítica, Culpa e Castigo devia estar de mau humor nesse dia. É que estes 3 são piores do que a PIDE e quando trabalham em conjunto, o Hitler parece um anjinho ao seu lado.

Correndo o risco de plagiar um tal de Cristo, vou usar aqui a técnica da parábola:

Imaginem um tipo porreiro que tem uma lâmpada teimosa no WC, que pisca e estremelica quando se acende. Isto passa-se numa daquelas noites em que parece que há pulgas na cama e o tipo levanta-se desgrenhado e com olheiras para responder ao apelo da Natureza, às 4h da madrugada.

Carrega no interruptor, ouve-se um "zzz" no tecto e fica tudo às escuras. Ele grunhe qualquer coisa entredentes, choca com a sanita 3 vezes e diz um palavrão. O trio ataca:
1 - Crítica: "Idiota... Já devias ter comprado uma lâmpada nova!"
2 - Culpa: "Agora vais sujar tudo porque não vês nada. Bem feito!"
3 - Castigo (de manhã): Nódoas negras nas pernas.

Segue-se a Escolha: comprar uma lâmpada na loja dos 300 ou fazer 300 kms até uma terra que não lembra ao menino Jesus, num carro que sacode por todos os lados, com geada no pára-brisas, no volante e no próprio assento, em busca do último modelo lâmpada 2010?
Pensando na fortuna já gasta em lâmpadas de baixa qualidade, o tipo enche-se de coragem e lá vai rumo à terra maravilha das lamparinas e candelabros de ouro.

Viver tem destas coisas...
Desconfio que assinei um atestado de loucura quando aceitei acreditar que nasci longe da "cidade das luzes" e que tinha apenas um caminho de cabras esburacado como ponto de partida.

A verdade é que a bendita cidade está debaixo do meu nariz e quando, depois de muitos kms percorrer, pergunto indicações a alguém de barbas brancas sentado no seu banco de madeira e ele responde:
"Oh menina, é já ali à direita e depois 50 metros sempre em frente!"
Abano a cabeça e em tom condescendente digo:
"Coitado, está senil."